Meu Pedacinho de ChãoEra uma vez…
Vila Santa Fé é o mundo da infância de duas crianças. Serelepe (Tomás Sampaio) e Pituca (Geytsa Garcia) são os protagonistas de ‘Meu Pedacinho de Chão, próxima novela do canal internacional da Globo, de Benedito Ruy Barbosa, com direção de Luiz Fernando Carvalho, que repetem a parceria bem-sucedida de novelas como ‘O Rei do Gado’ e ‘Renascer’.
A magia de um mundo de conto de fadas, repleto de referências a brinquedos, com árvores de várias cores e casas revestidas de latas enfeitadas, como os antigos brinquedos, é o caminho para o diretor ressaltar a atmosfera da infância que traz o texto. Escrito em 1971, quando a novela foi ao ar pela primeira vez, ‘Meu Pedacinho de Chão’ ganha agora ares atemporais, longe do realismo da primeira versão e com espaço para uma boa dose de humor.
A cidade cenográfica é um dos elementos principais da narrativa, ela própria uma representação do olhar da infância emoldurada pela memória. Para garantir este tratamento, Luiz Fernando Carvalho orquestra um trabalho de equipe, desde a produção de arte artesanal do artista plástico Raimundo Rodriguez e da cenografia de Keller Veiga ao criativo figurino de Thanara Schonardie, passando pela caracterização de Rubens Liborio e por recursos de animação e computação gráfica.
O universo rural foi ressignificado a partir do olhar da criança, mas com um tom de modernidade e de mãos dadas com a síntese do autor. Estarão lá os coronéis, os capangas, a professorinha, porém revitalizados pelos códigos da contemporaneidade que absorvem, com generosidade, todas essas influências.
Nesse sentido, o texto de Benedito Ruy Barbosa é um clássico que pode, e deve, ser lido de várias maneiras. Na primeira versão, de maneira realista; agora, lírica. O que denota a abrangência do texto. É através da lente lúdica de Serelepe e Pituca que o Coronel Epa (Osmar Prado), latifundiário da região e pai da menina, avesso ao progresso em todas as suas formas, trava uma luta contra seu desafeto, Pedro Falcão (Rodrigo Lombardi). Ele é a favor da modernidade, doou parte de suas terras para a construção de comércios, de uma capela e, agora, da primeira escolinha da cidade.
Com estreia prevista para abril, ‘Meu Pedacinho de Chão’ traz atores como Antônio Fagundes, Osmar Prado, Juliana Paes e Rodrigo Lombardi e também um elenco estreante em novelas, como Cintia Dicker, Bruno Fagundes, Irandhir Santos e Johnny Massoro. Compõem o elenco ainda Bruna Linzmeyer, Flávio Bauraqui, Emiliano Queiroz, Ricardo Blat, Inês Peixoto, Paula Barbosa, Dani Ornellas e Teuda Bara, entre outros talentos.
 O início de tudo…
O vilarejo de ‘Meu Pedacinho Chão’ começou a ganhar contornos de desenvolvimento nas mãos da família Napoleão. São terras adquiridas há muitos anos pelo avô de Epaminondas Napoleão (Osmar Prado), que cultivou a enorme fazenda, a deixou para o filho e hoje está nas mãos do neto, Epaminondas.
Foi justamente Epaminondas (Osmar Prado), chamado por muitos de Coronel Epa, quem iniciou a venda de pequenos lotes daquelas terras para outros sitiantes das redondezas, dentre eles Pedro Falcão (Rodrigo Lombardi).
Homem retrógrado que se defende do progresso, Epa acabou inimigo de Pedro Falcão. Motivo principal: Pedro doou um pedaço do seu chão, comprado de Epa, para que nele fossem construídas uma venda de seu Giácomo (Antonio Fagundes), e uma capela, que ficou aos cuidados do padre de descendência alemã, querido por todos, e chamado de Padre Santo ( Emiliano Queiroz).
O Coronel Epa também nunca perdoou Pedro por tê-lo derrotado nas últimas eleições municipais, elegendo seu protegido e parceiro político, o Prefeito das Antas (Ricardo Blat).
 O valor da amizade…
Um dos caminhos escolhidos pelo diretor Luiz Fernando Carvalho para reforçar a universalidade e atemporalidade dos temas essenciais tratados por Benedito Ruy Barbosa em ‘Meu Pedacinho de Chão’ foi ressaltar o lado arquetípico dos personagens.
Mais forte que a representação das figuras do coronel, da professorinha ou do mocinho, é a representação de valores como a Justiça, o Amor e, especialmente, a Amizade. Tanto que a história é narrada pelo ponto de vista mágico da infância dos inseparáveis Serelepe (Tomás Sampaio) e Pituca (Geytsa Garcia).
Serelepe vive na fazenda do Coronel Epa. Menino pobre, sem eira nem beira, não tem mãe, nem pai e nem história passada. Vive comendo e dormindo em qualquer canto da fazenda. A única coisa dele de fato, genuinamente dele, é a amizade de sua querida Pituquinha.
A linda cumplicidade dos dois vive sendo ameaçada pelo Coronel Epa, pai de Pituca, que não gosta nada da relação da filha com o menino. Serelepe, muito esperto, desenvolveu um grande talento para se livrar de enrascadas e faz de tudo para se manter próximo de Pituca. Ambos representam a Amizade, a Infância, o Sonho e a Liberdade.
O núcleo do Coronel Epa
O Coronel Epaminondas (Osmar Prado) é viúvo de dona Sofia, falecida há alguns anos e com quem teve seu filho Ferdinando (Johnny Massaro), que, muito jovem, saiu de casa para estudar fora. Casado pela segunda vez com a afogueada Madame Catarina (Juliana Paes), Epa tem com ela a graciosa Pituca ou Pituquinha (Geytsa Garcia), como muitos a chamam.
Ferdinando, já homem feito, volta para casa depois de ter concluído a faculdade de Agronomia. Só que o pai está aguardando seu único filho como um brilhante advogado, justamente para fazer frente, como político, ao senhor Pedro Falcão (Rodrigo Lombardi), ao atual Prefeito (Ricardo Blat) e a todos os seus aliados. Madame Catarina (Juliana Paes), esposa de Epa e madrasta querida de Ferdinando, é a única pessoa que sabe que o rapaz vai voltar engenheiro agrônomo e não advogado, para a maior decepção da vida do pai.
Na fazenda de Epaminondas vivem também, entre outros agregados, a Mãe Benta (Teuda Bara), parteira e benzedeira respeitada por todos, e seu filho Zelão (Irandhir Santos), além de Rodapé (Flávio Bauraqui). Também trabalham na Casa Grande, como é chamada a residência de Epa, Amânica (Dani Ornellas) e Rosinha (Letícia Almeida).
A escola de Santa Fé – Ensinando muito além do beabá
Por doação de Pedro Falcão (Rodrigo Lombardi), foi construída a primeira escola de Vila Santa Fé. Uma escola muito simples, mas que será tudo para aquela gente. No mesmo dia em que Ferdinando (Johnny Massaro) retorna ao vilarejo, chega também a encantadora e dedicada Juliana (Bruna Linzmeyer), professora contratada por Prefeito das Antas (Ricardo Blat) como a primeira mestra da escola da Vila.
E, como não tem onde ficar porque ainda não chegaram os móveis de seu quarto, Juliana é conduzida à casa de Pedro Falcão, onde irá viver por alguns dias. Lá, é recebida com honras de princesa por dona Teresa (Inês Peixoto), esposa de Pedro Falcão (Rodrigo Lombardi), e Gina (Paula Barbosa), filha única do casal.  Por trás da aparência selvagem e arisca de Gina, esconde-se uma moça muito bonita e cheia de grandes sentimentos. Ela será muito amiga de Juliana.
A construção da escola e a chegada da professora Juliana elevam ao máximo o ódio que Epaminondas sente por Pedro Falcão. E ele ordena que Zelão (Irandhir Santos), seu capataz, ponha fogo na escola antes que ela seja inaugurada.
Rústico, leal e acostumado a cumprir as ordens do Coronel Epa, Zelão segue sua missão. Mas, impressionado com a beleza, singeleza e meiguice da moça, Zelão desiste e a manda de volta para casa. Ele, que é considerado um bruto, temido por fiscalizar o trabalho de todos na fazenda e por executar todos os mandos de Epaminondas, começa a mostrar sua verdadeira essência, a partir de sua paixão por Juliana. Nela, ele reconhece a representação mais pura do amor e, tocado por esse sentimento, vai revelando-se mau apenas na aparência. Por dentro, trata-se de uma bela criatura. Zelão é, na verdade, o arquétipo do herói trágico.
As cartas de Zelão e seus rivais
Analfabeto, para confessar o seu amor para a professora Juliana (Bruna Linzmeyer), Zelão (Irandhir Santos) dita para Rodapé (Flávio Bauraqui), que se diz doutor em letras, cartas que são verdadeiros poemas. Acontece que Rodapé, por não saber escrever nem o seu nome, enche o papel de rabiscos e figuras de todos os estilos. Como Zelão nunca recebe resposta da professora, cria coragem, vai à escola e pergunta se ela leu as suas cartas.
Pelos desenhos e garranchos, Juliana se dá conta de que ele é completamente analfabeto. E Zelão, morto de vergonha, sai dali disposto a matar Rodapé, que foge dele como pode.
Mas não é só Zelão que se rende aos encantos de Juliana. Doutor Renato (Bruno Fagundes), médico recém-chegado à Vila e muito amigo de Ferdinando (Johnny Massaro), também é arrebatado pela professora. Renato chegou ao vilarejo por exigência de seu pai, médico famoso na capital que, reconhecendo o valor da profissão e a carência de profissionais da área no interior, sabe o que representa para a formação do filho que ele aprenda a cuidar dos mais necessitados antes de ter um grande consultório na capital.
Ele, que, a princípio, se instalaria por lá temporariamente, resolve ficar mais tempo. Seu amigo Ferdinando também se apaixona pela professora e os dois vão disputar esse sentimento.
Giácomo, um boa gente
Descendente de italianos, Giácomo (Antônio Fagundes) é amigo de todo o vilarejo. E, tão histriônico quanto seu jeito de ser, é o seu imenso coração. Com muito sacrifício, construiu a venda agregada à sua moradia, onde, viúvo, vive com a filha Milita (Cintia Dicker), sua maior riqueza. É muito amigo de Pedro Falcão, de quem ganhou a terra para construir sua venda.
Giácomo é o arquétipo do cicerone e do clown. Ele esbanja simpatia, mas também sabe ser duro quando precisa, especialmente quando se trata do romance de Milita (Cintia Dicker) com Viramundo (Gabriel Sater), um violeiro de muito talento mas, aparentemente, sem futuro. Isso porque Giácomo sonha que a filha faça um bom casamento e vê no Doutor Renato (Bruno Fagundes) um bom partido para Milita, moça muito bonita e que cuida da casa e do pai como ninguém. O que Giácomo não sabe é que Viramundo tem uma origem que, certamente, vai surpreender o comerciante.
 A magia na tela da TV – Verdade x Mentira
Para unificar todos os elementos cenográficos dentro do universo da fábula atemporal, o diretor Luiz Fernando Carvalho orientou todas as equipes da novela a criarem uma unidade com elementos não orgânicos, ou seja, as casas seriam de lata, a vegetação seria de plástico, as roupas seriam costuradas com diversos materiais, como plástico e borracha, fugindo assim de panos e materiais mais naturalistas.
A utilização desses materiais inusitados e suas cores compõem essa fábula atemporal. A flor de plástico, por não ser orgânica, vai contracenar de uma forma mais verdadeira com o traje de borracha de Zelão, por exemplo. E assim por diante, até que todo o microcosmo da cidade pertença a esse vocabulário de inovação de um mundo onde os materiais de “mentira”, quando entram em contato com o talento dos intérpretes, são alçados à condição de verdade.
Produção de arte e cenografia
A parceria profissional entre o diretor Luiz Fernando Carvalho e o artista plástico Raimundo Rodriguez soma mais de uma década e revela a fluidez e afinidade com que trabalham em ‘Meu Pedacinho de Chão’. Raimundo empresta sua arte para a estética lúdica e poética criada por Luiz Fernando Carvalho para a novela.
Uma cidade inteira nos moldes de um imenso brinquedo de lata, cavalos coloridos e articulados que se movem, engrenagens que tornam autômatos objetos inanimados, um carrossel de esculturas de vacas denominado “curral-céu”, são algumas das contribuições de Raimundo para a construção deste universo mágico visto pelo olhar da criança.  Tendo como inspiração brinquedos antigos, o artista utilizou, para revestir todos os prédios da cidade cenográfica, latões de tinta reciclados que, abertos, desamassados e pregados uns nos outros, fazem desta uma cidade de lata.
A reutilização de objetos é uma das características do trabalho de Raimundo Rodriguez: “Como matéria-prima, me interessa tudo o que sobra. A reutilização de objetos nos meus trabalhos tem o objetivo de ressignificar o mundo, dar novos sentidos e representações para as coisas”, reflete o artista.
Incansável, Raimundo lidera uma equipe diversificada e acompanha cada detalhe da confecção dos objetos cênicos que são, em sua maioria, artesanais. Seu ateliê polivalente, com viradeiras, prensas e tornos, é também uma oficina de brinquedos e fantasia.  A arte a serviço da dramaturgia.
Além das peças criadas por Raimundo, a produção de arte conta também com objetos diversificados, como lustres, máquinas registradoras e caixa de ferramentas antigas. Apesar de serem peças utilitárias, que existem de fato, elas representam a magia e a atemporalidade da fábula. Para isto, o produtor de arte Marco Cortez e sua equipe pesquisaram objetos, em sua maioria réplicas ou originais de antiquários, do final do século XIX e início do século XX, que tivessem estética exuberante e que, com algumas intervenções de cores e outros elementos, adquirissem o tom lúdico e atemporal conceituado pelo diretor.
Os objetos também ajudam a representar o universo de cada personagem. “Na casa de Epa, que é um homem que ostenta dinheiro e poder, os objetos são mais luxuosos, opulentos. Há muita porcelana, quadros, obras de arte e peças de cama, mesa e banho feitos com materiais nobres como seda e rendas elaboradas, mas também por cortinas de plástico adquiridas no Saara. Há também um acúmulo muito grande de papeis, escrituras, livros caixa, que representam a necessidade de controle e a avareza do personagem”, revela Cortez.
Em harmonia com a produção de arte, a cidade cenográfica de ‘Meu Pedacinho de Chão’ é um dos elementos principais da narrativa da novela. Para Keller Veiga, a “Vila Santa Fé é um lugar que contém todos os lugares da imaginação de Serelepe. A cidade é um brinquedo com outros brinquedos dentro”, reflete o cenógrafo, alinhado com a definição de Luiz Fernando Carvalho. O diretor considera a cidade um microcosmo que pode ser simbolizado como um jogo de armar peças que uma criança recolhe e compõe em seu quarto para estruturar uma cidade de brinquedo.
A cenografia não tem nenhum compromisso com a realidade, proporções ou estilo arquitetônico definido. Os prédios, 28 ao todo, numa área de 7 mil metros quadrados, são todos revestidos por latas, remetendo ao material utilizado por antigos brinquedos do século XIX. Todos esses edifícios possuem interior funcional que serve como set de filmagem.
Há apenas dois cenários em estúdio: as casas de Coronel Epa e de Pedro Falcão, que terão dois pavimentos. Luiz Fernando Carvalho criou um modelo de produção que privilegia os processos criativos dos departamentos. “Trata- se de uma grande novidade o fato de a história da novela ser contada com apenas 20 personagens e, com isso, ter a possibilidade de montar no estúdio apenas os cenários de Epa e Pedro Falcão, sem a necessidade de desmontagem”, comenta o diretor. Além disso, ao contrário do usual, esses dois cenários são fixos e o switcher (mesa de corte do diretor) fica dentro do próprio estúdio.
Cada metro quadrado da cidade cenográfica é explorado e um detalhe pode virar o plano principal da gravação. Por isso, existe um cuidado redobrado com o acabamento, de modo que ela possa ser filmada por todos os lados e até mesmo por cima.
Os prédios não têm compromisso com nenhuma arquitetura. Keller usa elementos espanhóis, mouros, como o porão do Coronel Epa. Faz uso também de referências de casas russas, siberianas, coloniais brasileiras, sem privilegiar nenhum estilo arquitetônico. As construções apenas remetem ao universo infantil.
Vila Santa Fé é colorida, solar e alegre. O projeto paisagístico é quase integralmente sintético. Há horta com legumes enormes e jardins de flores artificiais (mais de 120 mil flores coladas manualmente uma a uma). As árvores foram coloridas com mantas de crochê, uma alternativa para não agredi-las e, ao mesmo tempo, ajudar a representar o universo de contos de fadas.
Emoldurando toda a cidade, estão enormes painéis criados por Clécio Regis, que, somados linearmente, chegam a 3.200 metros. As grandes telas de lona crua foram pintadas durante 45 dias por Clécio e sua equipe predominantemente com as cores laranja, azul e amarela. Bebendo de Renoir e Van Gogh, as paisagens sofrerão influências das estações do ano, começando pela primavera.
Figurino e Caracterização
Alinhado à estética que remete a um conto de fadas atemporal, o figurino assinado por Thanara Schonardie caracteriza os personagens de forma lúdica, como se fossem ilustrações de um mundo mágico.
Como ponto de partida para essa atemporalidade, a figurinista buscou como referência o período entre o final do século XVIII e século XIX.  Mesclando materiais e peças originais dessa época, como renda e cartolas – garimpados em brechós e feiras de antiguidades em Londres –, com tecidos tecnológicos e até mesmo materiais como vinil, borracha e plástico, Thanara fez uma releitura moderna.  E usou de tudo: bolinhas de ping-pong, toalhas de mesa de plástico, cortinas de banheiro. Tudo costurado, um a um, peça por peça, num belo trabalho artesanal.
Dentro dessa gama de materiais, cada personagem é caracterizado de acordo com sua personalidade, mas dentro de uma unidade. “Juliana Paes, por exemplo, que interpreta Madame Catarina, segundo a visão do diretor Luiz Fernando Carvalho, contém várias mulheres numa só. Ela carrega consigo a força e a intensidade do feminino. Por este motivo, ela se veste cada dia de um jeito diferente, como se fosse uma Maria Antonieta. Para a atriz, usamos uma quantidade menor de elementos de plástico e caprichamos mais nas rendas. Ela usará bustle, com várias camadas em degradê, representando essa personalidade múltipla. Já o personagem de Irandhir Santos, o Zelão – que é um homem mais bruto, próximo do universo do desenho animado e das histórias em quadrinho -, será quase integralmente de plástico e com cores primárias”, revela Thanara.
A caracterização dos personagens, liderada por Rubens Liborio, também é inspirada no contemporâneo e no visual de época, que, juntos, remetem ao mundo encantado. O visual de Madame Catarina, interpretada por Juliana Paes, por exemplo, será mais exuberante, com bastante maquiagem e unhas pintadas. Seu marido, Coronel Epa (Osmar Prado), tem um visual mais austero, com costeletas e bigode estilo Dom Pedro. Ele usará também uma peruca que avoluma a lateral do cabelo. Já Antonio Fagundes, que interpreta Giácomo, tem um visual inspirado nos atores cômicos italianos dos anos 60. Seu cabelo foi cortado e tingido de preto e ele usará também um bigode.
A atriz Bruna Linzmeyer, que interpreta a professora Juliana e é o arquétipo do Amor, terá um visual mais romântico, com pouca maquiagem. A grande modificação da atriz foram os cabelos, que tiveram que ser tingidos de rosa, para dar o ar de boneca à personagem. Já a modelo e atriz Cintia Dicker, que interpreta Milita, filha de Giácomo, é uma Lolita, uma camponesa, com visual mais natural, minimalista. Para a caracterização da personagem, foi utilizada a técnica de tintura ombré, que tinge apenas as pontas do cabelo. O ator Johnny Massaro, que vive Ferdinando, passou por um trabalho de caraterização maior. “Ele usará lentes de contato azul e dreads em tom aloirado para compor o personagem, que é um homem mais moderno, que estudou fora”, completa Rubens.
Produção Musical
Dando continuidade ao processo criativo e original, chega-se, enfim, à música. Luiz Fernando Carvalho buscou na música instrumental toda a magia do encantamento de uma fábula e convidou o maestro Tim Rescala que, ao seu lado, concebeu a trilha sonora rica em lirismo, comicidade e até tragédia. “A trilha sonora funciona também como uma ferramenta narrativa na novela”, corrobora Tim.
Ele, que também é compositor e arranjador, assina a música original e a produção musical de “Meu Pedacinho de Chão”, composta por 28 músicas sinfônicas inéditas, de autoria de Tim, gravadas pela Orquestra Sinfônica Heliópolis e pelo Coral da Gente.
Além das composições inéditas, Tim Rescala criou novos arranjos para canções populares como “Chuá Chuá”, que será cantada, em cena, por todo o elenco. Alguns atores, além de cantar, tocarão instrumentos musicais. Inês Peixoto tocará acordeom, Wladimir Pinheiro, piano, e Gabriel Sater, filho do violeiro Almir Sater, tocará viola.
O diretor Luiz Fernando Carvalho vai recorrer novamente à mistura de gêneros e à apresentação de bandas pouco conhecidas no Brasil. Ele selecionou com Tim mais de 10 músicas da banda americana DeVotchka, que serão utilizadas também como base instrumental. A banda mistura vários gêneros musicais como indie e folk e ganhou maior visibilidade em 2006 ao participar da trilha do filme “A Pequena Miss Sunshine“.
Entrevista com o autor Benedito Ruy Barbosa
Benedito Ruy Barbosa é autor de novelas emblemáticas da TV brasileira como ‘Meu Pedacinho de Chão, primeira novela educativa da TV, exibida em 1971, ‘O Rei do Gado’, ‘Renascer’ e ‘Esperança’. Como jornalista, trabalhou nas redações de grandes jornais de São Paulo, antes de iniciar sua carreira como autor de novelas em 1966, na TV Tupi, com a novela ‘Somos Todos Irmãos’. Em toda sua carreira, Benedito escreveu 34 novelas, sendo 14 delas exibidas na Globo. Seu primeiro trabalho na emissora foi em 1976, quando escreveu ‘O Feijão e o Sonho’. O autor também escreveu 12 episódios do ‘Sítio do Picapau Amarelo’, na versão de 1977, e a minissérie ‘Mad Maria’. Benedito Ruy Barbosa sempre fez de sua própria vivência o eixo principal de suas tramas, abordando questões sociopolíticas que envolvem o universo rural, através de sagas familiares, e retratando o cotidiano e a diversidade dos tipos brasileiros.
Quais as principais diferenças entre a primeira versão de ‘Meu Pedacinho de Chão’ e a atual?
 
Benedito Rui Barbosa: Não se trata de um remake, é outra novela. Mantive o título e o nome de alguns personagens, mas a história, as questões tratadas e, especialmente, a forma de contá-la são diferentes. Na primeira versão, exibida no período da ditadura, eu não podia tratar de alguns temas, que até hoje são muito pertinentes, por causa da censura, ainda que a novela tivesse um cunho educativo. Agora, por exemplo, haverá professores e médicos em greve por atraso de salário e o prefeito conseguirá resolver a crise. Ele entenderá que, já que esses profissionais essenciais não recebem à altura do serviço que prestam, merecem, pelo menos, receber em dia o pouco que ganham. Isso jamais iria ao ar em 1971.

Qual o objetivo de narrar a história pelo ponto de vista da infância?

Benedito: ‘Meu Pedacinho de Chão’ é uma novela poética e doce. Ao contar a história pelo olhar da criança, reafirmamos valores que, aos poucos, vão se perdendo quando nos tornamos adultos. A criança é livre e não está contaminada pelas defesas que construímos ao longo da vida. Elas conseguem ver o mundo com encantamento, acreditam que é possível fazer dele um lugar melhor. Elas ainda não desistiram.

Como Serelepe e Pituca conduzirão para esta reflexão?

Benedito: Através da história de Serelepe, nós reconheceremos tantos outros meninos abandonados, espalhados Brasil a fora, que têm tanto a nos ensinar. Veremos a grandeza e a generosidade de gestos como ensinar o que se sabe. Ele, que aprendeu a ler e escrever sozinho, transmite aos outros o que aprendeu. Pituca também é comovente, uma ternura de menina. Apesar da pouca idade, ela tem muita clareza e lucidez na forma de ver o mundo, especialmente quando se trata do seu povo. Ela reconhece e defende a amizade como um bem maior.

Mais uma vez o senhor trabalha com o diretor Luiz Fernando Carvalho. Com está sendo esta parceria em ‘Meu Pedacinho de Chão’?

Benedito: Estou fascinado com o lirismo e a delicadeza com que o Luiz Fernando Carvalho vem conduzindo a história. Eu tenho profundo respeito e admiração pelo trabalho dele. Além de tecnicamente ser um diretor muito qualificado, o Luiz tem uma dedicação e uma sensibilidade muito especiais. Ele respeita o público e busca a excelência em tudo o que faz. Em ‘Meu Pedacinho de Chão’, ele orquestra uma equipe tão apaixonada e cuidadosa quanto ele. Todos estão envolvidos com o propósito de levar ao público um trabalho digno. Desde o elenco à costureira que prega um botão do figurino. Ele sabe que não se faz uma novela sozinho e estimula o trabalho colaborativo,  a criatividade de toda sua equipe.

E como é a sua relação com o elenco?

Benedito: Viram todos meus filhos. Quando uma novela está no ar, eu sofro, me preocupo com cada ator. A ponto de rezar para que nada de mau aconteça a eles. A gente se apega. Além disso, respeito muito o trabalho deles.

E como é o processo de reescrever uma novela?  O que o levou a escolher ‘Meu Pedacinho de Chão’ para essa volta às novelas?

Benedito: Eu senti a necessidade de falar de coisas boas, da grandeza de espírito, com essa proposta de ser uma novela poética, doce.  Foi uma delícia escrever ‘Meu Pedacinho de Chão’. Entreguei todos os capítulos de uma vez só, a coisa fluiu.

De onde vem a inspiração para escrever?

Benedito: Da minha mania de conversar. Eu viajei e viajo muito pelo Brasil e conheço muita gente, de todos os tipos. Converso com todo mundo. Sempre fui assim. É nessas andanças que me alimento de histórias e de personagens que representam a diversidade do país. E muito tem a ver também com as minhas memórias, com as lembranças que tenho do meu tempo de menino em Vera Cruz, no interior de São Paulo, onde fui criado. Uma novela atinge cada pessoa de uma forma diferente. Ela tem o poder de tocar as pessoas e de promover reflexões. Por isso  acho importante, especialmente nos tempos de hoje, falar de temas como amizade, respeito, dignidade, coisas que indistintamente dizem respeito a todos nós.

E qual a sua expectativa com relação à novela?

Benedito: Eu espero que as pessoas se divirtam, riam e se comovam com essa novela, que é leve, lírica, quase um poema de tão delicada.

Entrevista com o diretor Luiz Fernando Carvalho
Diretor de televisão e cinema, com formação em Letras e Arquitetura, Luiz Fernando Carvalho  fundou uma linguagem própria. Seu longa-metragem de estreia, “Lavoura Arcaica”,  recebeu mais de cinquenta prêmios nacionais e internacionais. Na televisão, já realizou 25 trabalhos, entre novelas, especiais, minisséries e microsséries. Foi diretor-assistente das minisséries “O Tempo e O Vento”,  “Grande Sertão: Veredas” e “Riacho Doce”. Dirigiu também grandes sucessos da TV brasileira como as novelas “Renascer”, “O Rei do Gado” e “Esperança”, escritas por Benedito Ruy Barbosa. Em 2005, criou, escreveu e dirigiu as duas jornadas da microssérie “Hoje É Dia de Maria”. Inspirada nos contos retirados da oralidade popular brasileira,  a série recebeu vários prêmios internacionais, sendo inclusive finalista do Emmy Awards em duas categoriais. Após ter adaptado diversas obras literárias para a TV, como “A Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna, e “Capitu”, uma transposição do romance de Machado de Assis, recentemente Luiz Fernando Carvalho dirigiu “Alexandre e outros Heróis”, adaptação de contos infanto-juvenis de Graciliano Ramos, e idealizou e dirigiu a série, em oito episódios, de “Correio Feminino”, inspirada nas colunas femininas que Clarice Lispector escreveu para jornais cariocas.
Nessa releitura de ‘Meu Pedacinho de Chão’, você optou por uma abordagem lúdica, sob o ponto de vista do conto de fadas. Por quê? Como você conceituou essa linguagem esteticamente?

Luiz Fernando Carvalho: Ao ler o texto do Benedito, percebi o quanto o autor trabalhava com elementos dramáticos muito simples, mas muito míticos também, aproximando os personagens de arquétipos bem definidos. Em uma conversa, Benedito me propôs que o universo que abraça a história fosse atemporal. Quando me disse isso, claro, uma quantidade de impulsos e visões começaram a surgir dentro de mim. O que vem a ser atemporal? Atemporal é um conjunto indefinido de afetos, tempos e espaços, mas que, necessariamente, precisam constituir uma unidade estética. Pensei imediatamente na questão da memória, que é uma das chaves da obra do Benedito, mas pensei sem o compromisso da representação histórica, de datas, pois, se assim fosse, estaríamos realizando simplesmente uma novela de época. Então o atemporal transpassa todos os tempos, ele reúne impressões e formas do passado, do presente e do futuro, da imaginação. O atemporal é fruto da nossa imaginação. Mas, no caso de Meu Pedacinho de Chão, há um ingrediente especial: a infância. Serelepe é como uma testemunha da resistência do lirismo e da memória. Isso implica dizer que a atmosfera é lírica, imaginada pelo olhar lúdico de um menino, com um frescor de luzes e cores, mas, por outro lado, como acontece nos contos de fadas, este menino é um órfão. Este sinal na alma do personagem já nos remete à uma narrativa mais clássica e  comum às novelas. De certo modo, pelo fato de o temperamento de Serelepe ser luminoso como o de um verdadeiro guerreiro, ele escapa ao lugar comum das crianças na dramaturgia contemporânea. Ele é uma faísca inexplicável! Um herói de fábula que contamina todo o microcosmo onde a história se passa. Quando imaginei o vilarejo onde se passa Meu Pedacinho de Chão, pude sentir que tudo ali existe daquela forma, por estar sendo filtrado e constituído pelo olhar da infância de Serelepe. Tudo aquilo seria um grande brinquedo do Serelepe.

Quais foram as suas principais referências para este trabalho?

Luiz Fernando Carvalho: Minhas referências foram tudo o que ficou para trás somado a tudo que vem pela frente, e que, felizmente, é puro mistério, não sabemos o que é! Se não sabemos exatamente como será uma vila no interior do Brasil daqui a algumas décadas ou séculos, foi preciso imaginar. É um presente quando um artista – seja ele de que área for – se depara com um texto que é generoso, se abrindo à imaginação de quem o lê. Enxergo este texto do Benedito como um clássico, com mil possibilidades de leitura. Assim como um Sheakspeare pode e deve ser encenado de várias formas, do histórico ao contemporâneo, e quanto maior a quantidade de leituras mais reafirmada a sua qualidade. Assim foi. Dos westenrs aos animês orientais, tudo me vinha na cabeça. Da operetas de circo–teatro aos antigos melodramas de rádio. Meu pedacinho de Chão é uma história onde vários gêneros se cruzam: drama, comédia, aventura, quadrinhos, fábula. Me pareceu muito pertinente cruzar os gêneros, criando uma atmosfera híbrida, moderna, capaz de atender às mais variadas modulações do texto. Mas, no fundo, pensei em emoção! Riso! Cores! E muita música! Meu Pedacinho de Chão é uma celebração da vida!

De onde surgem as ideias e as referências para a conceituação? Você costuma fazer muita pesquisa?

Luiz Fernando Carvalho: Meu trabalho é fruto de uma necessidade. Essa necessidade de criar é que gera a linguagem. Sou alguém que acredita no processo de criação, independentemente do número de capítulos, gênero etc. E dentro desta necessidade está a vontade de não me repetir, de seguir me questionando. Evidentemente, não faço isso sozinho. Parto da cumplicidade dos autores com os quais trabalhei – e Benedito é meu maior cúmplice, caminhamos juntos desbravando boas trilhas: Vida Nova, Renascer, Rei do Gado, Esperança… Mas o que quero dizer é que tenho ao meu lado um grupo de criadores tão famintos quanto eu, são os meus colaboradores, muitos deles seguem comigo, de mãos dadas, faz mais de duas décadas. Eles estão aqui neste momento. Raimundo Rodriguez, Thanara Schornardie, Keller veiga, Maristela Veloso, Karnewale, Tiche Vianna, Lucia Cordeiro, Tim Rescala, Agnes Moço; enfim são meus colaboradores diretos a quem eu compartilho minhas ideias e assimilo muitas das que partem deles. Mas esta lista não acaba aí, como trabalhamos em um processo colaborativo aqui no galpão, todos, sem exceção, atuam como criadores. E novos criadores surgem a cada dia. Das costureiras ao diretor de fotografia, da Madalena – nossa contra-mestra- aos contra-regras, estamos todos juntos o tempo todo e no mesmo espaço. É inevitável que todos sejam aprendizes e mestres. É inevitável que surjam ideias de todos os lados. Sou apenas um alquimista, um sujeito que recolhe tudo isso e busca um sentido estético. Mas a feitura da coisa em si é feita por todos. É impossível separar até onde quem fez o que. Todo mundo lança suas ideias em tudo. Este, no meu modo de sentir, é o valor maior deste trabalho. Devo à comunhão com todos a luz de Meu Pedacinho de Chão.

Em ‘Meu Pedacinho de Chão’ são usados recursos dos mais artesanais até a computação gráfica, passando pelo stop motion. Qual o resultado alcançado por essa mistura?

Luiz Fernando Carvalho: Tudo no mundo de hoje envolve ciência e tecnologia. Até o  processo de construção dos personagens pode ser traduzido através da ciência e da tecnologia. Uma quantidade enorme de conhecimento novo é gerado e aplicado. Técnicas ancestrais são revisitadas e incorporadas,  pois pertencem à história da interpretação, atravessaram tempos e nos são úteis até os dias de hoje. O novo, como todos sabem, vem do ancestral. Acredito fortemente neste diálogo entre os tempos. Utilizamos técnicas arcaicas na preparação dos atores (como o trabalho com as máscaras, por exemplo) e até mesmo na criação dos cenários, mas confrontamos estas técnicas com equipamentos e procedimentos da modernidade. Nas gravações, utilizamos câmeras de altíssima geração, capazes de captar imagens com pouca interferência da luz artificial sem produzir ruídos na imagem, mas diante de sua lente está um comediante clássico, metade Mazzaropi, metade Cantinflas. Nosso figurino e caracterização – na busca desta temporalidade – cruzaram materiais nunca antes costurados um ao outro para criação de um traje, como é o caso das borrachas, dos plásticos e dos vários tecidos de alta tecnologia, alguns ainda não fabricados no país. Enfim, a linguagem visual da novela traduz diretamente este fluxo de tempos e tecnologias.

Nos conte sobre Galo Bené. Foi uma criação sua?

Luiz Fernando Carvalho: Sim, foi. Benedito é um autor oral. Sua escrita é herdeira de uma coluna vertebral clássica, que é a dos grandes contadores de história. Nada mais emocionante do que estar frente a ele para ouvir seus ‘causos’ e histórias. Essa fluidez da narrativa oral, ele transpõe magistralmente para as rubricas e exclamações de seus personagens. Mas não são palavras escritas para serem ditas, pertencem ao texto apenas no sentido de orientar o tom certo para os atores e a direção. Mas sempre considerei essa forma de escrever como um recurso fundador de sua linguagem particular. Resolvi homenagear não só este traço de sua linguagem, mas seu próprio autor, oferecendo estas rubricas também aos telespectadores através da participação de um Galo de telhado, daqueles que todos pensam que está esquecido sob o sol e a chuva, eternamente presos sobre a rosa dos ventos. Não deixa de ser uma homenagem à volta deste grande autor, com ares novos! Um sopro novo o trouxe de volta!

Qual foi a sua intenção ao optar por explorar o perfil arquetípico dos personagens?

Luiz Fernando Carvalho: A origem do Benedito, quero dizer, seus primeiros passos como dramaturgo, foram dados no Teatro de Arena. Quando li Meu Pedacinho de Chão, percebi imediatamente a estrutura teatral: personagens míticos, uma concisão nas ações, e até mesmo um diálogo generoso, livre, que atravessa vários gêneros, da comédia à tragédia, e que me fez ler a obra como uma proposta muito moderna. Tudo isso me parece herdado de sua origem teatral, mas não estariam no texto se não fossem impregnadas de Vida. Pensei: por que não voltarmos e homenagearmos também suas origens teatrais, míticas, porém, agora, com os olhos voltados para o futuro?

Em seus trabalhos, você costuma unir atores experientes com novos talentos. Como foi a escolha do elenco de ‘Meu Pedacinho de Chão’?

Luiz Fernando Carvalho: Sempre pensei no Osmar para o Êpa. Foi uma visão que me ocorreu durante a leitura. Não trago fórmulas para montar um elenco. Sempre sinto que o grupo vai sendo formado por um conjunto de sentimentos e visões, por encontros antigos ou novos, nada muito pré-calculado, mas os sentimentos devem guiar tudo, como uma enorme saudade, por exemplo. Este é o caso do Fagundes: saudade! Fazia tempo que não trabalhávamos juntos, mas, por outro lado, não gostaria de repetir algo que fizemos em trabalhos anteriores, por isso lhe ofereci o Giácomo, uma figura de brinquedo, cômica, que o imenso talento do Fagundes está manejando com um brilho especial. E como é bom tê-lo por perto neste retorno do Benedito! Fagundes e Osmar são atores ícones de trabalhos anteriores com Benedito. Saudade é novamente a palavra capaz de traduzir a distância que sentia de Irandhir Santos, que desde A Pedra do Reino não trabalhávamos juntos. Fui o responsável por sua estreia na TV e, agora, com muita emoção, aqui estamos juntos nesta sua estreia em novelas. Seu Zelão é simplesmente encantador, sem palavras. Assim como encantadora é a Professora Juliana de Bruna, um personagem de conto de fadas da realidade, já que a construção de um Brasil que valoriza a educação é a nossa fábula maior, nossa meta, que ainda hoje depende e precisa da força dos sonhos de cada um de nós para torná-la real. Bruna faz uma heroína romântica, mas sem perder aquele vigor que combina amor e consciência, a tal força que alguns chamam de utopia. Mas além de tudo e de todos, estou tendo a grata alegria de conhecer uma atriz nova: Juliana Paes. Cheia de coragem para se livrar de antigos modelos, Juliana encarna uma Madame Êpa de opereta, mulher forte, cheia de volúpia e conflitos existenciais, mas sua atuação, repleta de frescor e nuanças me emociona e faz sorrir a um só tempo. O mesmo devo dizer do Rodrigo Lombardi, que se despojou do estigma de galã e se aventurou com riquezas de detalhes em seu Pedro Falcão. Ao seu lado estão Gina e Dona Tê [Paula Barbosa e Inês Peixoto] que fecham um trio rico em talento, unindo drama e comicidade.  Pensando bem, o elenco já é uma verdadeira família, formado também por grandes atores desconhecidos do público de TV, como é o caso de Fernando Sampaio [Marimbondo] e a querida Teuda Bara [Mãe Benta], provenientes do teatro, mas que já oferecem seu talento com desenvoltura. E o maravilhoso Rodapé? E a “minha Rainha Amância” ? – que me perdoem os demais, mas é assim que a vejo, por isso digo: Minha Rainha, tal a altura de seu talento e beleza! E o que falar de Serelepe e Pituca? As crianças são a alma da fábula, sem elas nada seria possível. Mas, afinal? Não seremos todos um tanto crianças ao entrar neste jogo com a imaginação destes personagens? O encontro com estes múltiplos talentos, provenientes dos mais variados pontos do país, e todos jogando livres com a imaginação é o que dá ao meu dia a dia a sensação de unidade artística e cumplicidade espiritual. Termos coragem para imaginar um mundo novo é tudo! E esta coragem cada um do elenco tem e busca, por isso eles receberão sempre a minha admiração. Se tivesse que resumir esta experiência, diria que estamos diante de um grande divertimento. É assim que todos estamos nos sentindo. É assim que nos apresentamos!

Como está sendo esse seu reencontro com Benedito Ruy Barbosa em ‘Meu Pedacinho de Chão’?

Luiz Fernando Carvalho:  Estou de volta às novelas desde “Esperança”, que veio em seguida a “O Rei do Gado” e “Renascer”. No intervalo entre elas, realizei também “Os Maias” – esta, por se tratar de uma produção de quarenta e poucos episódios, considero uma pequena novela, pois sua adaptação era estruturada como tal. Como vê, tenho pouca experiência em novelas, qualquer jovem diretor possivelmente já dirigiu o triplo; contudo, tive a sorte de criar uma parceria com o Benedito Ruy Barbosa, que considero um grande ficcionista. Nossos entendimentos dos elementos que estruturam uma obra para o grande público brasileiro sempre foram convergentes. Sou uma espécie de tradutor de sua síntese, não exatamente um diretor. Entendo o que ele pretende passar e então me coloco generosamente a seu serviço. Quero dizer com isso que, por mais que tenha colaborado com a minha visão e alguma criatividade em todos os trabalhos que fizemos juntos, a síntese foi e sempre será dele.
Decidi dirigir poucas novelas para me colocar diante delas como um amador. Esse frescor é fundamental para mim. Por isso “Meu Pedacinho de Chão” não se trata de mais uma novela, nem mesmo considero este momento como simplesmente minha volta às novelas. Não estou voltando a nada, pois não considero ter abandonado coisa alguma. O que existe é a continuidade de um exercício de um criador que não termina nunca e, especialmente em relação às novelas, ainda pouco explorado por mim. Tenho ainda curiosidades em relação ao gênero e por isso mesmo considero um desafio revisitá-lo. Sou um aprendiz. Não trago regras ou certezas de como deve ser feita a coisa, trago apenas amor pela história e os personagens. Sou um amador, já disse!
É também um momento de grande emoção para mim. Veja bem: Benedito, depois de um longo período impossibilitado de escrever, por questões de saúde, volta a escrever uma novela. Digo ‘volta a escrever’, pois, para mim, não se trata de um remake, considero uma obra original. Ajudado por seu neto Marcos Barbosa – que passou para o computador o que o avô lhe contou, já que ele perdera a enorme velocidade que tinha como datilógrafo -, Benedito narrou metade de memória, metade reinventando tudo, completando tudo! Sim, completando, pois as outras duas versões anteriores da novela, quando exibidas, por circunstâncias diferentes, sofreram dois golpes. Numa das vezes, a própria emissora que exibia a obra, muito precária na época, passava por dificuldades para se manter. Na segunda vez, a novela foi exibida em plena ditadura militar: Benedito desde sempre abordou questões sociais em seus textos, e isso fez com que alguns capítulos fossem censurados.  É por isso que “Meu Pedacinho de Chão” chega agora para ser contada com o total frescor de um texto novo. Então estamos falando de Renascimento! Este é o tema que vejo mais latente em tudo, pois, quando Benedito recobrou a saúde, sentiu uma necessidade vital de escrever. Ou escrevia ou não conseguiria seguir. Poderia escrever qualquer coisa, mas uma necessidade imensa clamou dentro de si: terminar “Meu Pedacinho de Chão” – sua primeira novela.
Por tudo isso, “Meu Pedacinho de Chão” não se configura como um simples remake.  Uma das grandes modernidades do texto é a concisão: são apenas 20 personagens, poucos cenários. Tudo se passa através de uma dramaturgia, a um só golpe, lírica e cômica, repleta de personagens inesquecíveis. Só tenho que agradecer. Estamos juntos!

Perfil dos Personagens
Epaminondas Napoleão (Osmar Prado) – Casado com Maria Catarina (Juliana Paes), ele é pai de Pituquinha (Geytsa Garcia) e Ferdinando (Johnny Massaro). É o arquétipo do Mal, representa a Sombra, o Retrocesso, a Decadência, a Vaidade e a Prepotência.
 Maria Catarina (Juliana Paes) – É casada com Epaminondas Napoleão (Osmar Prado). Com ele, teve Pituquinha (Geytsa Garcia), sua única filha, e é uma madrasta muito querida de Ferdinando (Johnny Massaro). É o arquétipo da Graça, da Sensualidade, da Maternidade e dos Instintos.
Juliana (Bruna Linzmeyer) – Primeira professora de Vila Santa Fé. Lecionar é a sua verdadeira e grande vocação. Juliana é o arquétipo do Amor.  Representa a Princesa, a Consciência e a Luz.
Pituquinha (Geytsa Garcia) – É filha de Maria Catarina (Juliana Paes) e Epaminondas (Osmar Prado). Grande amiga de Serelepe (Tomás Sampaio). Pituca representa a Infância, o Lirismo, a Amizade e a Liberdade.
Serelepe (Tomás Sampaio) – Órfão, ele é o grande amigo de Pituquinha (Geytsa Garcia). É o arquétipo da Natureza. Representa o Selvagem, a Liberdade, a Infância, a Justiça e o Sonho.
 Zelão (Irandhir Santos) – Filho único de Mãe Benta (Teuda Bara), é uma espécie de capanga do Coronel Epa (Osmar Prado). É o arquétipo do Herói Trágico: o Bruto, o Valente, o que será vencido pelo amor.
 Pedro Falcão (Rodrigo Lombardi) – Casado com Dona Tereza (Inês Peixoto) e pai de Gina (Paula Barbosa). Homem trabalhador e a favor do progresso. É o arquétipo do Justiceiro, representa a Justiça, o Trabalho e a Terra.
Giácomo (Antonio Fagundes) – Viúvo, ele é pai de Milita (Cintia Dicker). É muito amigo do atual prefeito (Ricardo Blat) e de Pedro Falcão (Rodrigo Lombardi). Giácomo é o arquétipo do Palhaço, o Cicerone, o Emotivo e o Zangão.
 Ferdinando (Johnny Massaro) – Filho único do primeiro casamento de Epaminondas (Osmar Prado). Órfão de mãe, tem grande carinho pela madrasta Catarina. É o arquétipo do Príncipe, O Poeta, Filho Pródigo e o Alquimista.
 Dona Tereza (Inês Peixoto) – Casada com Pedro Falcão (Rodrigo Lombardi) e mãe de Gina (Paula Barbosa).
Gina (Paula Barbosa) – Filha de Dona Tereza (Inês Peixoto) e Pedro Falcão (Rodrigo Lombardi). Descuidada no jeito de se vestir, Gina é chamada na cidade de mulher-homem. Grande amiga de Juliana (Bruna Linzmeyer).
Mãe Benta (Teuda Bara) – Parteira e benzedeira respeitada por todo vilarejo. Ela é mãe de Zelão (Irandhir Santos), seu único filho. Trabalha na fazendo do Coronel Epa.
Doutor Renato (Bruno Fagundes) – Grande amigo de Ferdinando (Johnny Massaro), se instala na vila de Santa Fé onde constrói um posto de saúde.
Milita (Cintia Dicker) – Filha única de Giácomo (Antônio Fagundes). É namorada de Viramundo (Gabriel Sater).
 Viramundo (Gabriel Sater) – Violeiro de talento, vai se revelar também um grande compositor. Namora Milita (Cintia Dicker).
Padre Santo (Emiliano Queiroz) – De descendência alemã, é amigo influente do atual prefeito das Antas. Como bom Padre que é, é o maior pacificador das brigas que acontecem no vilarejo.
 Prefeito das Antas (Ricardo Blat) – Vencedor das últimas eleições, é inimigo do Coronel Epaminondas (Osmar Pardo). Foi ele quem construiu a escola e quem trouxe Juliana (Bruna Linzmeyer) da capital para inaugurá-la.
 Rodapé (Flavio Bauraqui) – É empregado da fazenda do Coronel Epa. Tem uma alma quase de criança e é muito amigo de Zelão.
Izidoro (Raul Barretto) – Uma espécie de motorista da Casa Grande. É apaixonado por Rosinha (Letícia Almeida).
Rosinha (Letícia Almeida) – É a grande ajudante de Amância (Dani Ornellas) na Casa Grande e, principalmente, em sua cozinha. Apaixonada por Zelão (Irandhir Santos), odeia a professora Juliana (Bruna Linzmeyer).
 Amância (Dani Ornellas) – Cozinheira de mão cheia é praticamente a senhora da cozinha da Casa Grande. Se sente quase uma segunda mãe da menina Pituquinha. Também gosta muito de Serelepe, a quem ajuda sempre que pode.
Tuim (Kaue Ribeiro de Souza) – Grande amigo de Serelepe. Tem por Pituquinha também uma grande amizade e adora a menina.
Marimbondo (Fernando Sampaio) – É um dos pouquíssimos agregados do sítio de Pedro Falcão.
Lurdes (Alice Coelho) – Vive na fazenda Santa Fé e é esposa de Jonas, com quem tem um filho.
Jonas (Alex Brasil) – Marido de Lurdes, é uma espécie de líder dos agregados da fazenda.
Secretário do Prefeito (Evandro Melo) – Trabalha para o Prefeito das Antas.
Foto: Cidade cenográfica de’ Meu Pedacinho de Chão’
Crédito: Crédito: Divulgação/Globo

‘Meu Pedacinho de Chão’ está prevista para estrear no canal internacional da Globo segunda-feira, 7 de abril, nas Américas e, dia 8, na Europa, África e Japão.