A noite desta última terça-feira, dia 10, foi de puro encantamento no galpão de ensaios do Projac, no Rio de Janeiro. É que o diretor de núcleo Luiz Fernando Carvalho reuniu o elenco e a equipe de produção, figurino e arte de ‘Alexandre e outros heróis’ para apresentar à imprensa o especial em homenagem a Graciliano Ramos, escritor alagoano dos contos infanto-juvenis adaptados na obra.

No espaço, almofadas pelo chão convidavam os presentes a desfrutar do ambiente intimista e acolhedor, onde os atores, durante meses, construíram seus personagens através de um processo intenso de preparação. Ney Latorraca, um dos mais entusiasmados com o projeto, contou que toda a equipe acabou se tornando uma trupe de teatro. “O mais importante para mim neste trabalho foi, depois de 40 anos de TV Globo, 50 de carreira e quase 70 de idade, voltar às minhas origens de ator de teatro. Tive o meu tempo para poder criar junto com meus colegas de trabalho, que viraram amigos. Este é um trabalho que acredita na inteligência das pessoas”, conta.

Depois de assistirem ao clipe do especial, os atores, emocionados com o trabalho, contaram o que a experiência de participar da obra trouxe para suas vidas pessoais e profissionais, como Flávio Bauraqui que passou a observar o mundo de outra forma depois de viver o cego Firmino. Luci Pereira, Marcélia Cartaxo, Flávio Rocha e Marcelo Serrado, que também integram o elenco, se divertiram ao relembrar os bastidores das gravações, quando apelidavam os sapos e galinhas da locação, uma antiga fazenda à beira do rio São Francisco. Por último, Luiz Fernando Carvalho destacou o período em que estiveram em Pão de Açúcar, município alagoano. “Fomos gravar em Alagoas com uma equipe pequena, que lá se juntou aos talentos locais. Este é um trabalho de grupo. Meu esforço maior é estimular cada vez mais a criatividade dos meus colaboradores”, explica o diretor.

‘Alexandre e outros heróis’ tem texto de Luís Alberto de Abreu e Luiz Fernando Carvalho e direção de núcleo de Luiz Fernando Carvalho. Abaixo, o texto do especial.

ALEXANDRE E OUTROS HERÓIS
Julia Dultra

 Os senhores sabem por que tenho um olho torto?
Alexandre (Ney Latorraca) não tem muito. Já senhor, vive com Cesária (Luci Pereira), esposa e grande amor de infância, e Das Dores (Marcélia Cartaxo), a afilhada, em um modesto sítio no sertão nordestino. Seu maior dom é encantar, com histórias cheias de feitos épicos, os amigos que sempre aparecem à noite. Certa vez, lua cheia iluminando o Velho Chico, o nosso grande herói sertanejo conta como ficou com o olho torto depois de cavalgar uma onça. Duvida? Cuidado que é peia!

Gaudêncio (Flávio Rocha) já está ali, na varanda da casa, lançando olhares para Das Dores, enquanto finge observar o luar em meio à poeira que a leve brisa levanta da terra. O tipo aciganado, de blusa florida e pulseiras de couro, é o rezador e curandeiro da região que vira e mexe arrisca-se, em vão, a discorrer alguma história. Mas, toda noite, Alexandre o interrompe: tem necessidade de atenção e quer só para ele os ouvidos de quem estiver por perto para, quem sabe assim, abafar a solidão e a melancolia que devem ter feito parte de sua infância. Das Dores até tenta defender Gaudêncio, mas os olhinhos se voltam rapidamente para o milho que rala no chão da sala, com receio de ser flagrada por Cesária, atenta a tudo enquanto manuseia os bilros de sua renda.

Pela estrada, vêm chegando Libório (Marcelo Serrado) e Firmino (Flávio Bauraqui). O primeiro, cantador de emboladas, aproxima-se medroso e falante, sacudindo seu pandeiro e ajustando o suspensório, depois de um susto daqueles que o cego lhe pregou pelo caminho. A discussão é acalorada. Firmino, apoiado em seu cajado, ajeita o chapéu e, ainda que não enxergue, acredita que tanto faz ver como saber que existe um monte de coisa nova. Libório discorda: não há nada de novo sob o sol! Mas nem consegue argumentar depois da gargalhada profunda que Firmino lhe dispara. Apavorado, só lhe resta apressar o passo e pedir licença a Alexandre, que aproveita o impasse para se meter na questão. Gaudêncio também tenta, mas de novo…

Alexandre, homem fino das ideias, solta sua lábia e volta a ser o centro das atenções. Fala até sobre a eletricidade e explica que fio não é como cano d’água. Para provar que sabe o que diz, introduz um acontecimento de seus tempos de menino, animado pela curiosidade de Das Dores e apoiado na cumplicidade de Cesária, mulher dedicada que está ali para certificar palavra por palavra das aventuras do marido.

E é assim que ficam sabendo do dia em que o pai de Xandu, como era chamado na infância, pede ao filho para dar umas voltas e achar roteiro de uma sumida égua pampa.  O menino, cabresto em mãos, sai atrás do animal e acaba adormecendo ao deitar para repousar na ribanceira do rio. Acorda em uma escuridão medonha e avista, lá embaixo, dois vultos malhados, um grande e um pequeno, junto da cerca do bebedouro de gado. Certo de que era a grande a égua pampa de seu pai, Xandu levanta-se corajoso. Sem sela, sem arreio nem mesmo espora, corre na direção do animal, salta em seu lombo e dispara com ele caatinga adentro, entre mandacarus, xique-xiques e espinheiros, até amansar o bicho e chegar, todo lanhado, ao curral da fazenda. Foi só ali, ao amanhecer, que os olhares assustados de seu pai, familiares e empregados lhe fazem perceber a loucura que tinha cometido.

Alexandre faz uma pausa na história para descansar. Estica-se na rede com o peito aberto debaixo do robe azul e da calça desabotoada. Mas o silêncio na sala, que até então reinava absoluto com a voz e a magia em sua narrativa, é quebrado pela gargalhada desafiadora de Firmino. O cego desatina a rir, demonstrando sua descrença a tudo o que acabara de ouvir. Diante da indignação de Cesária, quer entender que espinheiro é esse, que só apareceu agora, depois de escutar pra lá de três vezes a mesma história do olho torto.

Os demais estão quietos, resguardados pela penumbra das lamparinas. Sabem que, no fundo, Alexandre está mentindo, mas discordar dele seria privar-se da esperança de um mundo melhor, de um sertão menos duro e seco. A fantasia, onde Alexandre mergulha para dar conta de uma realidade indesejada, também alivia os que escutam suas histórias. Para salvar a noite, Libório então lança mão de seu pandeiro e não titubeia:

Neste mundo de meu Deus / já vi tudo e mais um pouco
Já vi onça cantar coco / e ganhei fama de louco
Por cantar tudo o que vi/ Mas o mundo sempre gira
E aqui eu dou meu troco/ afirmo e ninguém retira
Que da boca de Alexandre / nunca ouvi sair mentira.

Os versos não acalmam Alexandre. Ele sustenta sua história com tanta segurança que a honra está ferida por terem duvidado de sua palavra. Mas Cesária novamente sabe o que fazer para que o marido termine de contar por que o olho acabou torto. E, mais firme do que quando se retirou, o velho aceita as desculpas de Firmino e lhe explica como jamais poderá se esquecer do espinheiro: foi justamente ele que “agarrou” seu olho esquerdo. Foi nele que, ao refazer o caminho percorrido no lombo da onça, achou o olho preso, quase murcho e sangrando. Foi ali que avistou seu corpo por dentro – o coração batendo, as artérias pulsando – , quando, na pressa, encaixou o olho do avesso. Viu também os miolos, seus pensamentos, a primeira comunhão, a feira de Caruaru, o sino da igreja, Cesária e ele crianças chupando umbu…

De volta à sala, Alexandre conta como, logo depois, endireitou o olho: meteu o dedo no buraco e o puxou para fora. O danado acabou ficando torto, mas passou a enxergar melhor que o outro. Melhor até que o direito, numa clara postura de quem já não quer o estigma: agora o olho torto lhe faz superior! Só que no meio do mundo de sonho de suas lembranças, as dúvidas de Firmino persistem. Que fim levou a onça? O cego quer saber. Alexandre se esquece, Cesária entra para amarrar a história do marido e, mais uma vez, a incredulidade de Firmino exalta os nervos de Alexandre, que se estatela no chão.

Cesária corre para acudir, pede ajuda a Das Dores, mas a beata crê que Firmino está possuído e avança para livrar seu corpo do mal. Gaudêncio se mete no meio para apartar os dois, enquanto Libório, aflito que só ele, queima a mão no pandeiro para tentar recuperar a paz com sua música. O pandemônio está armado na sala! Eu disse… foi duvidar… é peia!

A homenagem a Graciliano Ramos
A vontade é antiga: há muito tempo, Luiz Fernando Carvalho tinha o projeto de levar a obra de Graciliano Ramos à televisão. Quando, em 2013, iniciaram-se as comemorações pelos 60 anos de morte do escritor alagoano, o diretor juntou-se a Luís Alberto de Abreu, parceiro de longa data, para adaptar o conto infanto-juvenil “O Olho Torto de Alexandre”.

Esse é o segundo conto do livro “Histórias de Alexandre”, publicado em 1944, que reúne diversos textos sobre as fanfarronices de um típico mentiroso do sertão. Faz parte também do livro “Alexandre e Outros Heróis”, uma compilação de três outros livros do autor, produzida em 1962. No conto, o olho torto do personagem é fruto de uma grande aventura, é obra da bravura de um menino que domou uma onça. A história é inverossímil e faz parte do folclore nordestino – já deve ter sido escrita por diversas mãos e de diversas maneiras. Mas a mentira não é o único atributo da narrativa. Há a comédia e uma grande ironia, da sutil à escancarada, que se substancia na figura do protagonista. Há também um forte cunho fantasioso, cheio de encantamento, reforçado pela fala imperiosa de Alexandre.

Explicar a escolha do conto para a adaptação não é difícil. “Mexo nesse texto há muito tempo. O conto, assim como o livro todo, tem uma ligação muito forte com a oralidade popular brasileira. Você percebe, o tempo inteiro, um diálogo entre a alta literatura, representada pelo rigor das palavras de Graciliano, com a cultura popular, cheia de improvisos e liberdades. Uma história como essa, contada por um escritor que é quase um matemático, é algo que impressiona”, comenta o diretor. A adaptação também chegou em ótimo momento para Luís Alberto, que há tempos vem pesquisando os heróis mentirosos do sertão. “Eu sempre estudei muito a nossa cultura popular. Aqui no Brasil, temos vários mentirosos como Alexandre, do sul ao norte do país, com histórias nem sempre são parecidas. A unidade entre eles está na falta de limites para a imaginação”, explica.

Defensor da aproximação entre literatura e televisão, Luiz Fernando quis, com o especial, expor o lado lúdico e cômico do autor de “Vidas Secas”. “Graciliano foi muito pouco adaptado para a televisão, provavelmente por ser considerado, equivocadamente, um escritor sisudo, impenetrável. Adaptar este texto ajuda a derrubar um pouco este clichê. É como revelar um escritor inédito, quase umheterônimo de Graciliano. Parece um Graciliano mascarado, que está ali brincando de escrever para crianças. Nesse deslocamento, do escritor dos grandes livros para o de contos infanto-juvenis, ele praticamente descobre um novo gênero”, define. Para Luís Alberto, o universo da imaginação ameniza a escritura contida do escritor: “Nesses contos, Graciliano adota uma imaginação desbragada. Há um lado melancólico, do passado do protagonista, mas o mais forte é a recriação da dificuldade do olho. E, com isso, ele vai longe”, conta.

O mundo do sonho e da fantasia nunca esteve ausente da obra de autor alagoano, mas, com o conto (e o livro em geral), o autor distancia-se de sua conhecida narrativa seca e amarga e suaviza o tratamento de motes sociais. Não entra a fundo na questão, mas os personagens são indivíduos marginais, não integrados a nenhuma atividade produtiva e à beira de uma penúria declarada. Com as aventuras fantásticas que narra, Alexandre ameniza seu passado e a miséria dos amigos ouvintes.

Mais do que símbolo de coragem, o olho torto de Alexandre é alegoria da sua capacidade de reafirmar-se através da imaginação: é ele agora que vê melhor (e, para o escritor comunista, não à toa o olho torto é o esquerdo). “Para Graciliano, o olho torto transcende a fábula política e entra na questão da individuação, no sentido de que, quando você assume o que é, você ocupa um lugar no mundo. A mentira ali é algo sagrado, dá condições ao espírito humano de ascender. Com a fantasia, ele está reforçando a necessidade do sonho, de sonhos maiores, de justiça, de ideologia”, explica Luiz Fernando.

A morte de Alexandre
Talvez Graciliano Ramos tenha se inspirado nas aventuras do Barão de Müncchausen, o alemão Karl Friedrich Hieronymous, que viveu entre 1720 e 1797, e que, durante sua aposentadoria, gostava de receber os amigos em casa para contar suas aventuras de guerra nos anos em que serviu o exército russo. Todas elas retocadas com as mais extravagantes mentiras. Suas histórias têm narrativa folclórica e circulam há anos, muito antes de seu nascimento. A referência está na obra do escritor alagoano. E está também na adaptação de Luiz Fernando Carvalho e Luís Alberto de Abreu, no momento em que Alexandre sonha com sua morte.

“Luis Alberto e eu, na verdade, misturamos dois contos: o do olho torto e o que trata da morte do personagem, entitulado “A morte de Alexandre”. No sonho do protagonista, introduzi uma pequena citação ao barão, mas não quis deixar isso em primeiro plano”, revela Luiz Fernando. O motivo é simples: “Como Luís Alberto mencionou, no Brasil, existem vários mentirosos lendários que fazem parte da nossa literatura popular, praticamente um em cada região do país. Existem grandes contadores de histórias dentro do homem comum. Nas feiras, nas vendas… esse Barão de Müncchausen está ali. Não precisamos da imagem do barão, nós temos nossos próprios contadores de histórias, com suas vestimentas, fardas e chapéus¨, finaliza o diretor.

Do lado alagoano do rio
Para ambientar o especial, Luiz Fernando Carvalho só queria uma casa rústica em Alagoas, terra natal de Graciliano Ramos. E achou, depois de uma longa procura, a fazenda ideal em Pão de Açúcar, município a 230 quilômetros da capital Maceió e à beira do rio São Francisco.

A cidade faz fronteira com Sergipe, logo ali do outro lado do rio, e representa um sertão mais suave. “Eu não queria um sertão seco, já que também não estava adaptando um Graciliano seco. As águas do rio têm a ver com a história, com o fluxo da narrativa, com a ideia de renascimento. Tem muita água em toda a história”, comenta o diretor.

Dos quase 25 mil habitantes de Pão de Açúcar, saíram os 45 figurantes que fizeram parte das cenas da infância de Alexandre, como o momento em que a onça é vista no curral e a procissão por Nossa Senhora da Conceição. Nas cidades vizinhas de Água Branca e Palestina, foram escaladas as crianças que interpretaram Alexandre e Cesária (Hugo Freire e Isa Joseane Bezerra, respectivamente), quando meninos. As cenas da feira e da primeira comunhão do protagonista, gravadas em um dia, marcaram as lembranças do início do amor entre os dois.

Foi também em Pão de Açúcar que, um dia antes do início das gravações, o elenco principal terminou a fase de ensaios, iniciada no Rio de Janeiro. Ney Latorraca, Marcelo Serrado, Luci Pereira, Marcélia Cartaxo, Flávio Bauraqui e Flávio Rocha trabalharam em busca da unidade de interpretação necessária para o especial. Mas foram justamente suas formas diferentes de atuar que atraíram Luiz Fernando Carvalho. “Convidei atores dos quatros cantos do país, alguns com quem não havia trabalhado antes. São intérpretes de variadas formações e experiências que imprimem perfeitamente a universalidade de Graciliano”, conta.

A arte de transformar
O que o artista plástico Raimundo Rodriguez e o produtor de arte Marco Cortez fizeram na fazenda que serviu de locação para o especial não pode ser classificado de outra coisa. Tudo ali é arte! Cada detalhe, da restauração da estrutura do telhado da casa às panelas penduradas na cozinha, foi pensado para atender a encomenda do diretor Luiz Fernando Carvalho: imprimir realismo.

Conhecidos por resgatar a tradição do trabalho manual, Raimundo, Marco e suas equipes chegaram a Pão de Açúcar dois meses antes do início das gravações e transformaram, com as próprias mãos e com a ajuda de trabalhadores locais, uma antiga fazenda alagoana do século XIX, à beira do rio São Francisco. O desafio foi fazer o lugar voltar no tempo.

Branca e de portas e janelas de madeira, a casa principal foi inteiramente repintada em um processo que durou duas semanas. Por fora, as paredes ganharam tinta ocre e foram levemente desgastadas para mostrar as marcas do tempo de um lugar que já não goza da prosperidade de antigamente. O efeito envelhecido foi conseguido com a retirada de alguns pedaços de barro e a aplicação de três demãos de chá preto e café. Nas janelas, a madeira propositalmente descascada recebeu um tom azulado.  As telhas originais foram a única parte mantida da área externa.

Por dentro, a estrutura do telhado precisou perder a tinta branca e voltar à cor original de madeira. Todas as vigas foram reparadas e, assim, ficou mais fácil admirar o autêntico alpendre, conhecido na região como “brabo”. No chão, a cerâmica impressionou: a maioria das placas, com mais de 200 anos, estava intacta, e poucas precisaram de restauração. Ao término do trabalho, o sertão estava dentro de casa. “A ideia era essa: reforçar os tons amarronzados para imprimir a dureza e aridez da região. Com a cerâmica original, parecia que estávamos pisando em terra batida, como se a casa tivesse se fundido ao exterior”, explica Raimundo.

Além de cores usadas para distinguir os cômodos, as paredes também receberam marcas de cera, principalmente perto de janelas e portas, destacando o apoio de mãos e joelhos dos que se escoravam no barro para admirar a vista do rio São Francisco. O toque de realismo se estendeu às manchas negras, feitas com tinta e fumaça real, das lamparinas de uma casa sem eletricidade.

Os resquícios dos áureos tempos estão na decoração: a mesa de jantar e a cristaleira, mais imponentes, já estavam na fazenda. Louças e itens de cozinha foram garimpados por Marco Cortez entre os moradores de Pão de Açúcar e cidades vizinhas. “Tivemos certa dificuldade em encontrar objetos típicos e de época. O sertão está modernizado”, brinca o produtor. No cômodo transformado em cozinha, um artesão local construiu um fogão à lenha real com lajota e barro, exclusivamente para a gravação do especial. Bacias de zinco, copos de ágata e panelas de barro dividiram o ambiente com prateleiras suspensas por cordas de couro. A riqueza de detalhes na pesquisa foi tanta que a equipe prendeu ao couro cuias invertidas para proteger queijos e outros alimentos dos prováveis ataques de ratos, exatamente como se fazia na época.

Perto dali, o oratório de Cesária (Luci Pereira) recebeu atenção especial de Raimundo. O lugar onde a dona de casa e rendeira reza e paga suas promessas é iluminado por velas apoiadas no aparador, ao lado da imagem de Nossa Senhora da Conceição. Na parede logo acima, um mosaico de santinhos e retratos antigos de parentes, envolvidos com fitinhas coloridas, são as lembranças da família e representam promessas e graças alcançadas. “Naquela época, era comum amarrar fitas nas imagens impressas como forma de agradecer a ajuda dos santos de devoção”, conta o artista plástico. Os retratos na parede foram levados do Rio de Janeiro, mas lá ganharam a mão de poeira necessária para “pertencerem” ao lugar.

A arte de costurar
Luciana Buarque não mediu esforços ao levar a Pão de Açúcar 32 caixas de roupa, cheias de calças, vestidos, camisas, chapéus, sapatos e saias de época. Para vestir os sertanejos do especial, a figurinista trabalhou com realismo e muita poeira do sertão.

Todo o figurino saiu conceituado e produzido do Rio de Janeiro. Mas somente em Alagoas foi finalizado para entrar em cena. Além de ter que adaptar a roupa aos corpos dos figurantes locais (que não haviam feito prova de figurino), Luciana trabalhou constantemente nas peças do elenco principal com o objetivo de antecipar os pedidos do diretor Luiz Fernando Carvalho, conhecido por criar e improvisar em cena. Manualmente, bordou rendas, aplicou novas estampas e tingiu peças com a ajuda de costureiras da região e de uma contramestre de sua equipe. “Gosto muito de reaproveitar as peças, adaptá-las, começar uma roupa do zero mesmo”, conta a figurinista.

Para a figuração, Luciana priorizou tons mais claros para simbolizar o sonho e as lembranças da infância de Alexandre. Para o elenco, tons mais terrosos, com pouco detalhe de cor para, marcar uma realidade mais dura. Em ambos, muita poeira e tingimento amarelo. “No sertão, o vento bate e levanta a terra, que rapidamente penetra na roupa. As peças, apesar de bem cuidadas, ficam com o aspecto amarelado, com cara de antigas. Era isso o que precisávamos em cena”, explica.

Durante toda a fase de pesquisa, Luciana trabalhou conjuntamente com o supervisor de caraterização Rubens Libório, que, além do sol do sertão, também teve a poeira como ponto importante no processo de criação dos rostos dos personagens. O trabalho dos dois se apoiou na fotografia latino-americana e em imagens de vaqueiros que utilizam o couro como proteção para o corpo. “Os personagens do especial não são cangaceiros; são sertanejos mais arrumados, menos miseráveis”, conta a figurinista.

Gaudêncio (Flávio Rocha), por exemplo, é um homem que usa bijuterias, roupas mais coloridas e alegóricas, como a blusa florida. Sua calça, originalmente branca, foi tingida, aos poucos, de preto para encontrar o tom envelhecido que seu figurino pedia. E, para arrematar a aparência de um cigano curandeiro, o ator Flávio Rocha precisou deixar a barba crescer e colocar megahair. Um falso dente de ouro também foi usado.

Já o cego Firmino (Flávio Bauraqui), o lord do sertão, aparece de terno de linho marrom. É mais monocromático e, apesar de surrado e empoeirado, não perde a elegância. Para destacar a principal característica do personagem, Rubens encomendou lentes de contato no Rio Grande do Sul. “Precisávamos daquele efeito de catarata azul esbranquiçado para dar mais realismo à sua cegueira”, descreve o caracterizador que também utilizou argila para embolar o cabelo e a barba do ator. Em contrapartida, Libório (Marcelo Serrado) é como um bobo da corte: a calça levemente frouxa, de forma mais bufônica, combinada à blusa listrada representa certa alegria. Além das orelhas aumentadas com próteses de silicone, o cabelo de Marcelo Serrado ganhou tom mais claro. Rubens comenta a referência: “O Libório é polaco do sertão, aquele típico nordestino com ascendência europeia”.

Em Cesária (Luci Pereira), não foi necessária nenhuma aplicação de maquiagem. Totalmente natural, a atriz usava apenas o cabelo preso com grampos como nos anos 40. Para seu figurino, Luciana Buarque desbotou um tecido de estampa floral, originalmente vivo demais para a história, e costurou um vestido de cintura marcada, que imprimisse o jeito mais feminino da personagem. “Ela é a musa de Alexandre e mãe de todo mundo. É a representação da proteção e tem uma sensualidade natural, típica da mulher vaidosa”, explica a figurinista. A afilhada Das Dores (Marcélia Cartaxo) também usa estampa floral, porém mais miúda e discreta, com véu de renda de igreja, simbolizando a religiosidade da personagem.

Alexandre (Ney Latorraca) aparece, na maior parte do especial, de pijama claro e robe azul entreaberto. Ali, ele é o contador de histórias, descansando em sua rede, com todos à sua volta a escutá-lo. Mas, quando é o coronelzinho dono do sítio, se apresenta de terno de linho branco e colete. “Ele é a antítese de seu antagonista Firmino. Tem o terno no armário, mas está todo desmontado”, brinca Luciana. Para o momento de sua quase morte, o paletó escuro contrasta com a clareza dos lençóis na cama.  O olho torto do personagem foi conseguido com uma lente de contato fabricada em Los Angeles (Estados Unidos). Acima da sobrancelha, uma cicatriz feita de silicone é lembrança da ferida feita pelo espinheiro. Rubens também utilizou látex para aumentar as pálpebras do ator e marcar rugas e vincos na pele. E a barba ganhou volume e um tom amarelado. Tudo para marcar a senilidade do personagem.

Foto 1: Ney Latorraca e Luis Fernando Carvalho
Foto 2: Marcelo Serrado, Flavio Rocha, Flavio Bauraqui
Crédito: Globo/Renato Rocha Miranda

Com adaptação de Luís Alberto de Abreu e do diretor Luiz Fernando Carvalho, o especial ‘Alexandre e outros heróis’, vai ao ar no canal internacional da Globo, terça-feira, 24 de dezembro na Europa e África, domingo, dia 29, nas Américas, e quarta-feira, dia 1o de janeiro, no Japão.

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